Ele parecia um cachorro quando a gente solta depois de um dia inteiro preso. Corria, pulava, ria, se atirava nas águas, voltava pra areia, rodopiava. Férias.
Fomos à praia no Leme, só nós dois. A diversão dele era essa, diversão de menino de sete anos, magrelo, comprido e já moreninho do sol carioca. A minha diversão de avó era olhar enternecida pra alegria dele na tarde azul do verão, o mar de pequenas ondas e areias cintilantes.
Veio correndo , molhado e salgado, ao meu encontro na barraca:
-Vovó, olha aquele cargueiro!!
-Onde?
-Lá! Lá longe, vovó. Bem longe...
Acreditei que o vulto cinza no horizonte devia ser o de um cargueiro, porque disso ele entende muito mais que eu. Distingue mesmo de longe "cargueiros, petroleiros e cruzeiros" e parece que posso ouvir essas três categorias na vozinha dele, agora.
Aproveitei que ele estava perto e pedi que sentasse um pouco na sombra pra beber mate e comer biscoito Globo.
-Mas eu quero brincar na água!
-Depois você vai. O mar não vai sair daí.
Pausa encerrada, voltou às carreiras pra beira mar.
Havia outras crianças na praia, com bolas, fazendo castelos e buracos na areia, mas ele se divertia sozinho. Falava com piratas invisíveis, enfiava espadas imaginárias nas pequenas ondas, caía sentado, pulava, ria, corria pra lá e pra cá...quando , de repente, parou.
Estático.
Se deu conta que o Cargueiro passava bem próximo à praia.
Sem sair do lugar, voltou a cabeça para me olhar e verificar se eu também estava participando daquele instante mágico. Eu estava.
-Olha, vovó! Olhaaa!!!
O navio estava carregado de contêiners multicoloridos o que tornava o espetáculo mais bonito ainda na tarde ensolarada. E era realmente colossal.
O mundo parou na beira d´água praquele menino magrelo. Ninguém na praia parecia se importar. Mas ele ficou ali, parado.
Ergueu a mão direita e acenou de leve.
Sozinho.
Pra ninguém.
Pro navio.
Pro Colosso.
Acenou como se quisesse, de alguma maneira, tocar a maravilha, estar mais perto da maravilha.
Como se quisesse que a maravilha soubesse que ele estava lá aplaudindo o espetáculo. Que pra ele, Cargueiro, você é da maior importância. Ele que te percebeu de longe e que você fez a gentileza de vir dar esse espetáculo só pra ele.
Deu alguns passos lentos para a esquerda, na direção em que o navio rapidamente se deslocava rumo à Pedra do Leme.
E ficou acenando até ele sumir completamente por trás da rocha.
Num momento de puro amor.
Num momento de inocência absoluta.
Num momento em que eu fui a única testemunha de seu estado de graça plena.
Leve e breve memória luminosa encarnada em mim.
Armazenada nas retinas molhadas de emoção para quando, um dia , for necessário dar a ele de presente de volta a imagem da sua inocência.
2 comentários:
Ana.
A criança conserva essa capacidade única de em seu mundo particular, enxergar o que nós os adultos deixamos de ver. Linda essa narrativa, e linda a capacidade desse menino "magrelo" (como você diz), se encantar com uma coisa tão simples. O que será que passa pela cabeça dele quando distingue ao longe, "apenas um navio cargueiro"?.
Felicidade de vó que não tem tamnho. Parabéns.
Fiquei lá na praia tentando disfarçar as lágrimas que ainda me invadem cada vez que me lembro da cena...
Só as avós são felizes!��
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