sexta-feira, 19 de setembro de 2025

A Natureza Crua da Nossa História

 












A clareza cegante de saber que pra você eu só poderia e poderei ser aquela de olhos frágeis, a mulher bem amada - jamais a companheira - a impossibilidade de uma vida partilhada que conspurcasse o inatingível que, paradoxalmente, atingimos.


Sabíamos?

Penso que não: o Amor invadiu e fim.

Fomos capazes e corajosos ao extremo, chegamos a  todos os extremos.

Porém você me quer aquela, quase inatingível, que você conquista e, conquista uma outra vez ainda, obsessivamente. E vou me entregando sem peias, sem rédeas.

Mas sempre devendo recuar para que você reinicie o seu ritual -  porque 'aquela estrela é a dela'- de me buscar aonde eu estiver, aonde minha alma estiver e, de novo, again and again, para que eu me entregue sem limites, sem cuidados, sem demora, sabendo que não devo, para mais uma vez recuar e você não me esquecer, para eu não me esquecer de nenhum minuto vivido, não me deixar esquecer que te pertenço e de me fazer sair por aí mentindo e dando meu corpo pra não dar minha alma pra ninguém, porque você vai vir, sei que vai, para reempossá-la, anulando com um gesto arrebatador, um só gesto, todo o meu trabalho sobre ela a fim de  libertá-la para, enfim, EU me apropriar dela.

No Jardim Botânico

 










A mesma luz.

O Bosque.

Ando rápido como se pudesse escorrer a raiva pelos pés, como se pudesse afundá-la na lama rasa que se formou depois da chuva. 

Os turistas passam devagar aprisionando as paisagens nas câmeras digitais. 

A mesma  paisagem que espero que me liberte,  e que me dê redenção desse sentir desmedido.

Esse sentir que me imobiliza na consciência desse tempo circular, esse sentir sem alívio que me inunda de dúvidas, se as coisas existem, se o tempo e o fazer do tempo existem de fato, se existe o caminho que a gente pensa que escolhe.

O sol de outono filtrado nas folhas centenárias me afaga os ombros e metade do rosto. 

Vou me virando devagar em direção a ele e lembro Alberto Caeiro- quem está ao Sol não pensa em nada. 

Sossego.